domingo, 15 de janeiro de 2012

O desjejum.

Luz. Havia muita luz em seu rosto lhe ofuscando a visão. Isso lhe acontecia todos os dias de manhã quando abria a porta da frente, porque o interior daquela casa era muito escuro, as cortinas velhas estavam sempre fechadas, haviam poucas entradas de ar, os móveis antigos, escuros e empoeirados atribuíam um aspecto ainda mais melancólico para aquele ambiente quase inóspito com ar denso e energia parada. Logo aquela dorzinha das pupilas se contraindo bruscamente por causa da luz nem a incomodava, na verdade era um bom sinal, uma dorzinha boa acompanhada de uma sensação de liberdade. 

Enfim ar puro, ou pelo menos ar livre. A cidade era barulhenta, agitada e intensa. Ela pensava ter acordado cedo, mas a cidade acordara bem mais cedo que ela e já estava cansada. Já haviam algumas semanas que ela praticava aquilo que chamava de "a arte de flanar" todos os dias, pela manhã e se possível a tarde, mas pela tarde era mais difícil, pois suas tias a arrastavam para o claustro novamente. "Nada de vadiagens a tarde, mocinha. Há muito o que fazer aqui." "Não estou vadiando coisa alguma, estou flanando! Será que neste lugar não se reconhece mais um flâneur?!" Aprendera isso com o João do Rio em um livro e levava a risca. Andava com um exemplar de A alma encantadora das ruas em baixo do braço, assim como faz o religioso com sua bíblia. De livros ela entendia, queria entender agora era de pessoas. 

Por isso flanava. Hoje saiu para flanar um pouco mais cedo, como já pudemos ver. Com uma bicicleta velha, um caderno, uma caneta, uma garrafa d'água e um saco de pães de queijo furtados para o desjejum na mochila, saiu feliz cantarolando com um sorriso bobo estampado na cara. Os vizinhos já a conheciam. "Bom dia, Clarinha." "Bom dia dona Vitória". Já sabia direitinho para onde iria naquele dia, para o mesmo lugar que fora no dia anterior onde passara a manhã travando relações com crianças de rua da mesma idade. Ela se identificara muito com elas, pois elas também não tinham mais mães nem pais que as ajudassem, elas só tinham umas as outras. Quando elas a viram chegar fizeram festa. Hoje teriam o desjejum prometido.. 

6 comentários:

  1. Thiago Araujojaneiro 15, 2012

    Barbosaa! Não podia deixar de comentar =]
    Agora deu tempo de ler!! Muito fera o texto \o/

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  2. A sua capacidade de descrição como sempre aguçada. Adorei o estilo sutil de falar sobre certas coisas...

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  3. Meu Deus, que texto ótimo, nao sei, é muito bom, todos seus textos são muito bons assim. Parabéns

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  4. Ah menina, que texto mais gostoso de se ler. Amei a frase ''De livros ela entendia, queria entender agora era de pessoas. '' Isso é tão ''eu''.
    rs

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  5. Aguardo mais textos, Rosa.

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  6. Uau! Os textos são seus? São lindos! Encontrei você em uma comunidade do orkut. Estou te seguindo. Passarei sempre por aqui. Um beijo!

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Já estou ansiosa para ler seu comentário, mesmo antes de você ter terminado! :D