domingo, 29 de janeiro de 2012

Spoiler

"Quasímodo desapareceu de Notre-Dame no dia da morte de Esmeralda e do arcebispo. Nunca mais foi visto, nem se soube de sua sorte.
Na noite que se seguiu ao suplício de Esmeralda, o corpo da jovem foi retirado e levado, de acordo com a tradição, para a caverna de Montfaucon, onde eram jogados os infelizes executados nas forcas de Paris.
Quanto ao misterioso desaparecimento de Quasímodo, eis o que pudemos descobrir. Dois anos após esses acontecimentos, foram encontrados em Montfaucon dois esqueletos singularmente abraçados. Um deles, que era de uma mulher, ainda tinha um pedaço de tecido que havia sido branco, e se via em torno de seu pescoço um colar com um pequeno saquinho de seda que estava aberto e vazio. Tais objetos tinham tão pouco valor que o carrasco, sem dúvida, não o quis. O outro corpo, que abraçava fortemente o primeiro, era um esqueleto de homem. Percebia-se que ele tinha a coluna vertebral torta, a cabeça afundada nas omoplatas e uma perna mais curta que a outra. Não possuía, no entanto, nenhuma ruptura de vértebra na nuca, e era evidentemente o único que não tinha sido enforcado. O homem ao qual ele havia pertencido, portanto,  morrera ali. Quando quiseram separá-lo do esqueleto que abraçava, desfez-se em poeira."


O Corcunda de Notre Dame - Victor Hugo

domingo, 15 de janeiro de 2012

O desjejum.

Luz. Havia muita luz em seu rosto lhe ofuscando a visão. Isso lhe acontecia todos os dias de manhã quando abria a porta da frente, porque o interior daquela casa era muito escuro, as cortinas velhas estavam sempre fechadas, haviam poucas entradas de ar, os móveis antigos, escuros e empoeirados atribuíam um aspecto ainda mais melancólico para aquele ambiente quase inóspito com ar denso e energia parada. Logo aquela dorzinha das pupilas se contraindo bruscamente por causa da luz nem a incomodava, na verdade era um bom sinal, uma dorzinha boa acompanhada de uma sensação de liberdade. 

Enfim ar puro, ou pelo menos ar livre. A cidade era barulhenta, agitada e intensa. Ela pensava ter acordado cedo, mas a cidade acordara bem mais cedo que ela e já estava cansada. Já haviam algumas semanas que ela praticava aquilo que chamava de "a arte de flanar" todos os dias, pela manhã e se possível a tarde, mas pela tarde era mais difícil, pois suas tias a arrastavam para o claustro novamente. "Nada de vadiagens a tarde, mocinha. Há muito o que fazer aqui." "Não estou vadiando coisa alguma, estou flanando! Será que neste lugar não se reconhece mais um flâneur?!" Aprendera isso com o João do Rio em um livro e levava a risca. Andava com um exemplar de A alma encantadora das ruas em baixo do braço, assim como faz o religioso com sua bíblia. De livros ela entendia, queria entender agora era de pessoas. 

Por isso flanava. Hoje saiu para flanar um pouco mais cedo, como já pudemos ver. Com uma bicicleta velha, um caderno, uma caneta, uma garrafa d'água e um saco de pães de queijo furtados para o desjejum na mochila, saiu feliz cantarolando com um sorriso bobo estampado na cara. Os vizinhos já a conheciam. "Bom dia, Clarinha." "Bom dia dona Vitória". Já sabia direitinho para onde iria naquele dia, para o mesmo lugar que fora no dia anterior onde passara a manhã travando relações com crianças de rua da mesma idade. Ela se identificara muito com elas, pois elas também não tinham mais mães nem pais que as ajudassem, elas só tinham umas as outras. Quando elas a viram chegar fizeram festa. Hoje teriam o desjejum prometido..