segunda-feira, 10 de outubro de 2011

É guerra.

[...] E agora ela corre como se fosse a última coisa que teria de fazer na vida. Ela acaba de tirar o salto e deixá-lo ali mesmo jogado na rua. No momento ela não precisa dele, ela precisa na verdade é correr. Quem sabe ela poderia chegar a tempo de avisar a outra que eles estavam vindo, daí então, juntas iriam arrumar as malas e fugir dali.

Ela está pensando o pior. É claro que pensa. Corre ainda mais rápido pisando nas poças de chuva pelo caminho. Pelo seu rosto rolavam as gotas d'água que caiam do céu e agora rolam também lágrimas. Mais duas ruas e estaria em casa. Agora ela só pensava em subir o lance de escada rapidamente, abrir o guarda-roupa, pegar a mala, explicar a outra que ultrapassaram o tempo de ficar ali e que logo seriam descobertas.

Chegou a casa. A porta da frente estava entreaberta e o trinco quebrado, havia sido arrombada. Mais do que rápido ela entra pensando: "isso não está acontecendo, não é real, não é real, não é real..." tudo na sala está quebrado e revirado. Na pressa de subir as escadas ela tropeça, cai, levanta ofegante e volta a correr. Agora ela já pode ver o início do corredor, no último quarto a porta está aberta e tem um braço branco estendido sobre o chão no meio do portal. Atenção nessa parte, leitor, porque enquanto a nossa personagem corre desesperadamente ao encontro daquilo que ela menos queria, eu vos adianto que ela verá agora a cena que para ela será a mais chocante de toda a vida e que se repetirá na mente dela infinitas vezes até a sua própria morte, dolorida e tardia morte.

Ela está de frente para o quarto e estirada no chão está aquela que ela jurou proteger por amor. Por amor juramos muitas coisas. A pele daquela que está desfalecida no chão era branca e macia mas agora estava suja e machucada. A roupa rasgada deixavam desnudos os seios antes bonitos e atraentes, agora deformados. Os cabelos negros, longos e cacheados se misturavam ao sangue no chão que escorria de sua cabeça.

A nossa personagem chegara tarde demais. Estava parada de frente a porta e dali não se mexia a vários minutos. Desde que seus olhos encontraram os olhos de sua amada no chão, não pudera ter outra reação. Os olhos vazios de vida eram os que mais exprimiam o horror do que acontecera naquele quarto. Os olhos cor de mel estavam agora vidrados em uma expressão de pleno horror e angústia.

A nossa personagem principal começa agora a reviver todos os momentos felizes que tivera com aquela que estava agora morta no chão. Lembrou-se de como se conheceram, em uma festa, de como dançaram juntas, de como se olharam e de como se beijaram. Foi a primeira vez que ela sentiu o perfume doce daquela que iria amar para sempre. Lembrou-se de quando decidiram que iriam morar juntas e assumir publicamente que eram diferentes. Lembrou-se de quando começaram a ser perseguidas e de como era difícil viver em um mundo de iguais sendo diferentes. Lembrou-se de como selaram o juramento de sempre cuidar uma da outra, com um beijo. Lembrou-se das dificuldades, mas se lembrou também de como aquele sorriso e aquele perfume doce lhe reconfortava. Agora não mais.

O sorriso morreu e o perfume estava quebrado no chão. O cheiro que se espalhou pelo quarto do perfume quebrado, não era mais reconfortante, pois agora lembrava morte. O cheiro doce e forte lhe fazia doer a cabeça e a visão que tinha lhe fazia doer o coração.

Enfim chorou. Debruçou-se sobre o corpo e gritou. Gritou de dor. Olhou novamente para os olhos vidrados, eles pareciam querer dizer algo. Olhou na direção em que eles teriam olhado e viu uma mensagem na parede feita com sangue em letras garrafais:
ENQUANTO HOUVEREM SERES REPUGNANTES COMO VOCÊ, DIGNOS APENAS DE DESPREZO E ESCÁRNIO, QUE APENAS A EXISTENCIA OFENDE A FAMÍLIA, A MORAL E OS BONS COSTUMES, ANDANDO SOBRE A FACE DA TERRA, PESSOAS DE BEM COMO NÓS JAMAIS ESTARÃO SEGURAS E EM PAZ. ESTÁ DECLARADA A GUERRA CONTRA OS DIFERENTES.

10 comentários:

  1. você escreve muito bem

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  2. meu, que sinistro. vou ter pesadelo essa noite, certeza. quando for rica vou te patrocinar nandinha <333

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  3. CARALHO, estou pasmo...
    nossa vei, que bom ouvir uma crítica tão nítida, mas pra algumas pessoas tão imperceptível!
    veei, tipow, to maravilhado mesmo *--*, sem noção, perfeito de maais, continua a escrever, por favor!

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  4. Um texto que, com certeza, me impressionou. À cada dia eu consigo notar a sua maturidade na escrita se desenvolvendo cada vez mais, e agora ela alcançou um nível que é capaz de impressionar até mesmo os mais exigentes. Foi um prazer ler esse texto. Ótima escolha de tema, um texto coerente, coeso, e o principal, centrado nos detalhes. É isso o que faz a diferença em textos com um apelo emocional e psicológico tão forte. Obrigado por mais esse post, espero pelo próximo

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  5. que lindo,você escreve bem demais :O,muito lindo
    mesmoo *-*

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  6. É o tipo de texto grande que não faz você ter pressa de terminar de lê-lo. Talvez seja exagero meu, mas eu diria que foi sua melhor crítica até hoje feita. :)

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  7. Obrigada anônimo, obrigada amigos linds.

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  8. Nossa, estou muito impressionado.Você escreve muito bem mesmo, vou passar a acompanhar o blog.

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  9. Além de estar chocada com a sua criatividade, estou chocada com a crítica. Mesmo esses fatos estando muito frequentes hoje em dia, a gente ainda se impressiona. E se impressiona ainda mais com o fato de ainda existirem pessoas como você que se importam e lutam para que isso mude.

    Mariana. (:

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  10. excelente, agressivo, direto. Parabéns!

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Já estou ansiosa para ler seu comentário, mesmo antes de você ter terminado! :D