segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Epifania.

Com os olhos cheios d'água largou o livro sobre a cama. Toda aquela ansiedade para acabar a história, todas aquelas palavras, aqueles personagens agressivos, aquela vida que era sua, mas não era. Vivera a vida de outro por dois dias, e agora ele estava morto. Nada mais daquilo que pertencia ao antes fazia sentido. Tudo fazia sentido. Agora. Para sempre. Chutou o livro da cama. As lágrimas cansadas de ficarem penduradas nos olhos rolaram. Sua vida era um lixo. Lixo. Só lixo. Reviveu todos os momentos da história do livro em um segundo como se fossem seus momentos. É porque na verdade eram. O livro lhe abrira os olhos, e com os olhos bem abertos se olhou no espelho. Viu seu cabelo grande e ondulado, quase selvagem, invejável. Tantas horas já havia passado na frente do espelho cuidando dele. "Idiotice", pensou. Agora ela sentia como se ele a diminuísse. Aquela aparêcia, aquelas roupas, aquele batom não eram ela de verdade, não a representavam. Ela agora queria ser outra. Na verdade, já era outra. Minto, agora ela seria ela mesma. Pegou a tesoura e cortou. Cortou seus cabelos até onde conseguiu. Era uma troca, os maços de cabelo pela vida. Mais duas lágrimas correram.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

É guerra.

[...] E agora ela corre como se fosse a última coisa que teria de fazer na vida. Ela acaba de tirar o salto e deixá-lo ali mesmo jogado na rua. No momento ela não precisa dele, ela precisa na verdade é correr. Quem sabe ela poderia chegar a tempo de avisar a outra que eles estavam vindo, daí então, juntas iriam arrumar as malas e fugir dali.

Ela está pensando o pior. É claro que pensa. Corre ainda mais rápido pisando nas poças de chuva pelo caminho. Pelo seu rosto rolavam as gotas d'água que caiam do céu e agora rolam também lágrimas. Mais duas ruas e estaria em casa. Agora ela só pensava em subir o lance de escada rapidamente, abrir o guarda-roupa, pegar a mala, explicar a outra que ultrapassaram o tempo de ficar ali e que logo seriam descobertas.

Chegou a casa. A porta da frente estava entreaberta e o trinco quebrado, havia sido arrombada. Mais do que rápido ela entra pensando: "isso não está acontecendo, não é real, não é real, não é real..." tudo na sala está quebrado e revirado. Na pressa de subir as escadas ela tropeça, cai, levanta ofegante e volta a correr. Agora ela já pode ver o início do corredor, no último quarto a porta está aberta e tem um braço branco estendido sobre o chão no meio do portal. Atenção nessa parte, leitor, porque enquanto a nossa personagem corre desesperadamente ao encontro daquilo que ela menos queria, eu vos adianto que ela verá agora a cena que para ela será a mais chocante de toda a vida e que se repetirá na mente dela infinitas vezes até a sua própria morte, dolorida e tardia morte.

Ela está de frente para o quarto e estirada no chão está aquela que ela jurou proteger por amor. Por amor juramos muitas coisas. A pele daquela que está desfalecida no chão era branca e macia mas agora estava suja e machucada. A roupa rasgada deixavam desnudos os seios antes bonitos e atraentes, agora deformados. Os cabelos negros, longos e cacheados se misturavam ao sangue no chão que escorria de sua cabeça.

A nossa personagem chegara tarde demais. Estava parada de frente a porta e dali não se mexia a vários minutos. Desde que seus olhos encontraram os olhos de sua amada no chão, não pudera ter outra reação. Os olhos vazios de vida eram os que mais exprimiam o horror do que acontecera naquele quarto. Os olhos cor de mel estavam agora vidrados em uma expressão de pleno horror e angústia.

A nossa personagem principal começa agora a reviver todos os momentos felizes que tivera com aquela que estava agora morta no chão. Lembrou-se de como se conheceram, em uma festa, de como dançaram juntas, de como se olharam e de como se beijaram. Foi a primeira vez que ela sentiu o perfume doce daquela que iria amar para sempre. Lembrou-se de quando decidiram que iriam morar juntas e assumir publicamente que eram diferentes. Lembrou-se de quando começaram a ser perseguidas e de como era difícil viver em um mundo de iguais sendo diferentes. Lembrou-se de como selaram o juramento de sempre cuidar uma da outra, com um beijo. Lembrou-se das dificuldades, mas se lembrou também de como aquele sorriso e aquele perfume doce lhe reconfortava. Agora não mais.

O sorriso morreu e o perfume estava quebrado no chão. O cheiro que se espalhou pelo quarto do perfume quebrado, não era mais reconfortante, pois agora lembrava morte. O cheiro doce e forte lhe fazia doer a cabeça e a visão que tinha lhe fazia doer o coração.

Enfim chorou. Debruçou-se sobre o corpo e gritou. Gritou de dor. Olhou novamente para os olhos vidrados, eles pareciam querer dizer algo. Olhou na direção em que eles teriam olhado e viu uma mensagem na parede feita com sangue em letras garrafais:
ENQUANTO HOUVEREM SERES REPUGNANTES COMO VOCÊ, DIGNOS APENAS DE DESPREZO E ESCÁRNIO, QUE APENAS A EXISTENCIA OFENDE A FAMÍLIA, A MORAL E OS BONS COSTUMES, ANDANDO SOBRE A FACE DA TERRA, PESSOAS DE BEM COMO NÓS JAMAIS ESTARÃO SEGURAS E EM PAZ. ESTÁ DECLARADA A GUERRA CONTRA OS DIFERENTES.