terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Frango com ameixas.

No inicio do ano passado eu tive a feliz oportunidade de ler devorar Persépolis, uma autobiografia da quadrinista iraniana Marjane Satrapi, que se passa durante e depois da revolução islâmica. Eu me amarrei na história, me senti teletransportada no tempo para a época da Guerra Irã-Iraque e passei a sofrer tudo com Marjane, a perda do tio, a crise de identidade e tudo o mais. Ela é uma pessoa incrível (inteligente, irreverente, engraçada e talentosa) e seu trabalho é incrível também. Eu ultra recomendo Persépolis, mas não vim aqui para falar dele, e sim de um outro livro dela, Frango com ameixas.



Eu li o livro em coisa de uma hora. Não é grande, mas é intenso. A história é melancólica, mas também bem humorada. Marjane conta a história de um tio-avô (Nasser Ali Khan) que foi um grande musico, mas que por vários motivos se sente incompleto e decide morrer. O livro narra seus últimos 8 dias fazendo uma viagem por suas memórias e principais acontecimentos, fazendo um apanhado geral de sua vida, de seus amores, desejos, sua personalidade, etc. O livro fala sobre política, filosofia, liberdade artística e relações afetivas. Eu achei incrivelmente emocionante por se tratar de uma história real, além de ser uma busca despropositada e natural no desvendar dos segredos da alma humana, da vida e do destino. É uma obra completa que me remeteu a várias reflexões. Eu li o livro ontem e estou em estado de graça até agora. Se eu fosse você, iria a livraria agora comprar este livro, dik.


Na foto, minha querids Marjane Satrapi.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Spoiler

"Quasímodo desapareceu de Notre-Dame no dia da morte de Esmeralda e do arcebispo. Nunca mais foi visto, nem se soube de sua sorte.
Na noite que se seguiu ao suplício de Esmeralda, o corpo da jovem foi retirado e levado, de acordo com a tradição, para a caverna de Montfaucon, onde eram jogados os infelizes executados nas forcas de Paris.
Quanto ao misterioso desaparecimento de Quasímodo, eis o que pudemos descobrir. Dois anos após esses acontecimentos, foram encontrados em Montfaucon dois esqueletos singularmente abraçados. Um deles, que era de uma mulher, ainda tinha um pedaço de tecido que havia sido branco, e se via em torno de seu pescoço um colar com um pequeno saquinho de seda que estava aberto e vazio. Tais objetos tinham tão pouco valor que o carrasco, sem dúvida, não o quis. O outro corpo, que abraçava fortemente o primeiro, era um esqueleto de homem. Percebia-se que ele tinha a coluna vertebral torta, a cabeça afundada nas omoplatas e uma perna mais curta que a outra. Não possuía, no entanto, nenhuma ruptura de vértebra na nuca, e era evidentemente o único que não tinha sido enforcado. O homem ao qual ele havia pertencido, portanto,  morrera ali. Quando quiseram separá-lo do esqueleto que abraçava, desfez-se em poeira."


O Corcunda de Notre Dame - Victor Hugo

domingo, 15 de janeiro de 2012

O desjejum.

Luz. Havia muita luz em seu rosto lhe ofuscando a visão. Isso lhe acontecia todos os dias de manhã quando abria a porta da frente, porque o interior daquela casa era muito escuro, as cortinas velhas estavam sempre fechadas, haviam poucas entradas de ar, os móveis antigos, escuros e empoeirados atribuíam um aspecto ainda mais melancólico para aquele ambiente quase inóspito com ar denso e energia parada. Logo aquela dorzinha das pupilas se contraindo bruscamente por causa da luz nem a incomodava, na verdade era um bom sinal, uma dorzinha boa acompanhada de uma sensação de liberdade. 

Enfim ar puro, ou pelo menos ar livre. A cidade era barulhenta, agitada e intensa. Ela pensava ter acordado cedo, mas a cidade acordara bem mais cedo que ela e já estava cansada. Já haviam algumas semanas que ela praticava aquilo que chamava de "a arte de flanar" todos os dias, pela manhã e se possível a tarde, mas pela tarde era mais difícil, pois suas tias a arrastavam para o claustro novamente. "Nada de vadiagens a tarde, mocinha. Há muito o que fazer aqui." "Não estou vadiando coisa alguma, estou flanando! Será que neste lugar não se reconhece mais um flâneur?!" Aprendera isso com o João do Rio em um livro e levava a risca. Andava com um exemplar de A alma encantadora das ruas em baixo do braço, assim como faz o religioso com sua bíblia. De livros ela entendia, queria entender agora era de pessoas. 

Por isso flanava. Hoje saiu para flanar um pouco mais cedo, como já pudemos ver. Com uma bicicleta velha, um caderno, uma caneta, uma garrafa d'água e um saco de pães de queijo furtados para o desjejum na mochila, saiu feliz cantarolando com um sorriso bobo estampado na cara. Os vizinhos já a conheciam. "Bom dia, Clarinha." "Bom dia seu Jorginho, hahahah". Já sabia direitinho para onde iria naquele dia, para o mesmo lugar que fora no dia anterior onde passara a manhã travando relações com crianças de rua da mesma idade. Ela se identificara muito com elas, pois elas também não tinham mais mães nem pais que as ajudassem, elas só tinham umas as outras. Quando elas a viram chegar fizeram festa. Hoje teriam o desjejum prometido.. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Preciso

Preciso ir. Não faça esta cara triste, nós já conversamos sobre isso, não posso ficar. Não diga assim meu nome entre sussurros, não posso, realmente não posso... não, não se despeça de mim assim com estes beijos... não tire o meu casaco, está frio lá fora. Não, não se incomode... óh céus, não pegue na minha cintura deste jeito que eu me arrepio... Se formos nos sentar naquela rede me esquecerei do tempo, já é tarde. Esquecer? Não, não posso me esquecer. Não brinque com o meu cabelo assim se não sabe fazer tranças, olha, estou arrepiando de novo! Eu lhe suplico, não faça isso, não me dê atenção, deixe-me ir... como consegue isso?? Eu lhe suplico... não, não use estes argumentos tão... isso é covardia... sim, sim, o seu desejo é o meu.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Epifania.

Com os olhos cheios d'água largou o livro sobre a cama. Toda aquela ansiedade para acabar a história, todas aquelas palavras, aqueles personagens agressivos, aquela vida que era sua, mas não era. Vivera a vida de outro por dois dias, e agora ele estava morto. Nada mais daquilo que pertencia ao antes fazia sentido. Tudo fazia sentido. Agora. Para sempre. Chutou o livro da cama. As lágrimas cansadas de ficarem penduradas nos olhos rolaram. Sua vida era um lixo. Lixo. Só lixo. Reviveu todos os momentos da história do livro em um segundo como se fossem seus momentos. É porque na verdade eram. O livro lhe abrira os olhos, e com os olhos bem abertos se olhou no espelho. Viu seu cabelo grande e ondulado, quase selvagem, invejável. Tantas horas já havia passado na frente do espelho cuidando dele. "Idiotice", pensou. Agora ela sentia como se ele a diminuísse. Aquela aparêcia, aquelas roupas, aquele batom não eram ela de verdade, não a representavam. Ela agora queria ser outra. Na verdade, já era outra. Minto, agora ela seria ela mesma. Pegou a tesoura e cortou. Cortou seus cabelos até onde conseguiu. Era uma troca, os maços de cabelo pela vida. Mais duas lágrimas correram.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

É guerra.

[...] E agora ela corre como se fosse a última coisa que teria de fazer na vida. Ela acaba de tirar o salto e deixá-lo ali mesmo jogado na rua. No momento ela não precisa dele, ela precisa na verdade correr. Quem sabe ela poderia chegar a tempo de avisar a outra que eles estavam vindo, daí então, juntas iriam arrumar as malas e fugir dali.

Ela está pensando o pior. É claro que pensa. Corre ainda mais rápido pisando nas poças de chuva pelo caminho. Pelo seu rosto rolavam as gotas d'água que caiam do céu e agora rolam também lágrimas. Mais duas ruas e estaria em casa. Agora ela só pensava em subir o lance de escada rapidamente, abrir o guarda-roupa, pegar a mala, explicar a outra que ultrapassaram o tempo de ficar ali que logo seriam descobertas.

Chegou a casa. A porta da frente estava entreaberta e o trinco quebrado, havia sido arrombada. Mais do que rápido ela entra pensando: "isso não está acontecendo, não é real, não é real, não é real..." tudo na sala está quebrado e revirado. Na pressa de subir as escadas ela tropeça, cai, levanta ofegante e volta a correr. Agora ela já pode ver o início do corredor, no último quarto a porta está aberta e tem um braço branco estendido sobre o chão no meio do portal. Atenção nessa parte, leitor, porque enquanto a nossa personagem corre desesperadamente ao encontro daquilo que ela menos queria, eu vos adianto que ela verá agora a cena que para ela será a mais chocante de toda a vida e que se repetirá na mente dela infinitas vezes até a sua própria morte, dolorida e tardia morte.

Ela está de frente para o quarto e estirada no chão está aquela que ela jurou proteger por amor. Por amor juramos muitas coisas. A pele daquela que está desfalecida no chão era branca e macia mas agora estava suja e machucada. A roupa rasgada deixavam desnudos os seios antes bonitos e atraentes, agora deformados. Os cabelos negros, longos e cacheados se misturavam ao sangue no chão que escorria de sua cabeça.

A nossa personagem chegara tarde demais. Estava parada de frente a porta e dali não se mexia a vários minutos. Desde que seus olhos encontraram os olhos de sua amada no chão, não pudera ter outra reação. Os olhos vazios de vida eram os que mais exprimiam o horror do que acontecera naquele quarto. Os olhos cor de mel estavam agora vidrados em uma expressão de pleno horror e angústia.

A nossa personagem principal começa agora a reviver todos os momentos felizes que tivera com aquela que estava agora morta no chão. Lembrou-se de como se conheceram, em uma festa, de como dançaram juntas, de como se olharam e de como se beijaram. Foi a primeira vez que ela sentiu o perfume doce daquela que iria amar para sempre. Lembrou-se de quando decidiram que iriam morar juntas e assumir publicamente que eram diferentes. Lembrou-se de quando começaram a ser perseguidas e de como era difícil viver em um mundo de iguais sendo diferentes. Lembrou-se de como selaram o juramento de sempre cuidar uma da outra, com um beijo. Lembrou-se das dificuldades, mas se lembrou também de como aquele sorriso e aquele perfume doce lhe reconfortava. Agora não mais.

O sorriso morreu e o perfume estava quebrado no chão. O cheiro que se espalhou pelo quarto do perfume quebrado, não era mais reconfortante, pois agora lembrava morte. O cheiro doce e forte lhe fazia doer a cabeça e a visão que tinha lhe fazia doer o coração.

Enfim chorou. Debruçou-se sobre o corpo e gritou. Gritou de dor. Olhou novamente para os olhos vidrados, eles pareciam querer dizer algo. Olhou na direção em que eles teriam olhado e viu uma mensagem na parede feita com sangue em letras garrafais:
ENQUANTO HOUVEREM SERES REPUGNANTES COMO VOCÊ, DIGNOS APENAS DE DESPREZO E ESCÁRNIO, QUE APENAS A EXISTENCIA OFENDE A FAMÍLIA, A MORAL E OS BONS COSTUMES, ANDANDO SOBRE A FACE DA TERRA, PESSOAS DE BEM COMO NÓS JAMAIS ESTARÃO SEGURAS E EM PAZ. ESTÁ DECLARADA A GUERRA CONTRA OS DIFERENTES.